Hoje estou prolixa. Talvez porque nem sempre cozinho em paz e hoje deu, a cabeça foi longe.

Ganhei um grão de bico pré-cozido, daqueles Vapza uó mas nada como socar tempero e cozinhar até ele deixar de ser de plástico – vale tentar. Batatas ficando véias, e uma bandeja de legumes picados com um monte de couve-flor, bem pouquinho brócolis e 3 rodelas de cenoura. Pensei em curry, encomendei leite de coco e coentro a meu velho pai que tem sido meu elo com o mundo exterior. (No fim ele inventou de trazer ameixa em calda, e meu deu até uma emoção olhar pra lata do lado do leite de coco e imaginar um manjar, que nunca fiz e quero tentar).

Adoro essa novela de pôr música e ficar “penteando”, picar cada coisinha devagar, separar tudo, sentir o cheiro, imaginar como vai ficar. Enquanto fazia isto, fui relendo a receita da Raquel Arellano lá no Gordelícias. O site dela é bacana, tem comidas lindinhas, várias vegetarianas, e depois me dei conta de que uso tanto esse site porque ela deve estar bem mancomunada com o Google. Aí eu vou adaptando, ao que tem em casa e ao que eu acho. Para mim os indianos usam ghee e não óleo, então troquei óleo por manteiga, e coloquei coentro no lugar de salsa e cebolinha. Comecei a separar os temperos que ela menciona: noz-moscada… Logo na páprica já achei meio indecente, fui trocando tudo. Piquei gengibre fresco, coloquei açafrão em pó, cardamomo, até um nadinha de canela. Tirei tomilho também que me pareceu mediterrâneo demais.

Nisso tudo já fui pensando que até onde sei a culinária indiana nem vê com bons olhos esse negócio de refogar alho e cebola, não sei se é Ayurveda ou Hare Krishna, só sei que me dei conta da salada que nossa ignorância faz. O país é enorme, fala sei lá quantos mil idiomas (não são nem dialetos), tem várias regiões que comem bem diferente e a gente fica aqui pensando se é indiano colocar leite de coco ou se é “thai”. Como a gente é gringo na vida! Tudo é muito exótico e achamos que a nossa imagem reduzida é a verdade daquele país. Eu sei lá em que região se bota canela, eu sei lá se curry é indiano ou se é coisa de inglês. Igual à comida mexicana que o mundo conhece, é completamente norte-americana. Chilli beans não existe no México, é uma invenção texana.

A gente tem o direito de fazer a gororoba que quer em casa, pode bis com farinha, pode qualquer coisa… Mas e essa apropriação, essa ignorância, esse gringuismo? E só acontece com comida do Sul do mundo. Uma mistura de colonialismo com aquilo do exótico. Culinária japonesa fica no meio, suponho que é mais respeitada, mas sei lá, eles perderam a guerra. No meio de toda massificação, o Sul é quem mais roda. Ninguém faz uma comida tipo alemã, tipo espanhola, tipo francesa. Francesa, então! Não tem fast-food dessas coisas, não tem aquela caricatura… E outra… Comida indiana? O país é gigante, completamente heterogêneo. E a gente não sabe nada, mal procura. Já a França… A gente aprende na escola, desde as pinturas rupestres de Lascaux, esse pilar do mundo ocidental. História na escola ensina cada picuinha interna da França, a gente estuda a religião, os huguenotes da porra (eu não, porque eu tava ocupada adolescendo e até na hora eram palavras soltas como num sonho). Aí a gente faz uns curry qualquer nota e come com arroz integral (meu caso), a gente faz chilli beans com Doritos, a gente ignora a comida da África. E fica levando a sério o gruyére da sopa de cebola, porque aí não pode esculhambar. Ninguém esculhamba com o roux. E ninguém hypa sanchocho. Ninguém sabe o que é e eu mesma não lembro agora, que eu lembre é um ensopado, e infelizmente eu sei que estou na média, no normal.

E com tudo isto lá saiu o curry herético, com alho e cebola na manteiga, com brócolis, tomate, batata, com pó de curry do mercadão, com um salseiro de especiarias muito doidas, comido com malagueta verde, e delicioso.

 

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#textosemgooglar (equivale ao #semfiltro do Instagram)

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